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19/2/2010
Radionovela do Pantanal combate aquecimento global e vira sucesso em escolas

O que aconteceria se a fauna, a flora e os mitológicos personagens das lendas do Pantanal interferissem na história da humanidade para combater o aquecimento global? É o que conta a primeira radionovela ecológica pantaneira, produzida pelo Núcleo de Ecomunicadores dos Matos (NEM). Coração Pantaneiro foi concebida por meio do projeto Rádio Ecologia, financiado pelo Programa de Pequenas Subvenções para Ecossistemas (EGP), do Comitê Holandês da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN NL). Em 26 episódios, a radionovela expõe os efeitos do aquecimento global, baseados em conhecimentos e prognósticos científicos, para os próximos 40 anos.

A história começa no ano de 2008, quando a cientista ariranha, pesquisadora do clima, convoca uma reunião extraordinária da lendária Sociedade Secreta dos Protetores do Pantanal, integrada pelos bichos, plantas e seres encantados da região. Em sua aterradora revelação, a cientista informa que nos próximos 100 anos o planeta Terra vai aumentar sua temperatura, inviabilizando a vida de muitas espécies e condenando grande parte dos seres humanos à morte.

Mas como todo problema tem uma solução, a sociedade secreta resolve interferir no trágico destino da humanidade e bola um plano para tentar diminuir os efeitos das mudanças climáticas. O seu Jaburu (tuiuiú), a dona Garça-branca, o Saci-pererê loiro, a Nossa Senhora do Pantanal, o Cará-cará, a dona Jacaré e as lendas pantaneiras, como o Minhocão, ajudam na missão.

Encontros e desencontros

Mas é necessário a ajuda de uma criança especial, o pequeno Gordão Paraguaíto, um garoto de cinco anos de idade que mora com sua avó, uma indígena Guató, na Serra do Amolar. No desenrolar da trama, ocorre um desencontro e o pequeno Górdão vai embora para São Paulo estudar, e deixa de ajudar a Sociedade Secreta dos Protetores do Pantanal.

Somente 40 anos depois, quando começa a trabalhar com uma equipe de pesquisadores que tenta decifrar enigmas de um misterioso cubo gigante encontrado na Serra do Amolar, Górdão, que virou piloto de espaçonaves e engenheiro de catástrofes, uma nova profissão do futuro, acidentalmente volta no tempo junto com a bióloga Sofia Carandá. As influências do filme De Volta para o Futuro, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, e da série Lost, são marcantes nesta fase da radionovela.

Não por coincidência Górdão e Sofia retornam ao ano de 2008, quando a sociedade secreta tentava colocar em prática seu plano para salvar o mundo. Na evolução dos capítulos acontecem muitas aventuras, romance, suspense e mistérios recheados com as riquezas e saberes da cultura pantaneira. Um trio de ariranhas malucas e outro de pulgas que fugiram de um circo acompanham o narrador da história, que tem sotaque estrangeiro e guarda um mistério sobre sua identidade.


Viagens sonoras

Coração Pantaneiro revoluciona os contos das antigas radionovelas ao proporcionar uma ambientação realística do Pantanal. Os sons de fundo, de aves, insetos, anfíbios, em diferentes cenários e horários do dia, por exemplo, são da série Sons da Natureza - Pantanal, de Beto Bertolini, com produção de Cláudia de Medeiros. Lançado em Compact Disc, a obra captou áudio de diferentes ambientes no Pantanal do Rio Negro e foi distribuído para escolas, rádios e organizações que atuam na região.

Na trilha sonora, Coração Pantaneiro valoriza produções regionais, que deram vida à história. Além do Grupo Acaba - os canta-dores do Pantanal, foram divulgadas músicas das duplas Padre Salomão e Vanda (da obra cantando no Pantanal volume 1 e 2), Thamy e Fausto, do LP Tetê e o Lírio Selvagem, de Almir Sater, composições como Pé de Cedro, de Zacharias Mourão, além de Ney Matogrosso, guardado especialmente para o final.

Para quem tem quase 30 ou mais anos de idade, a radionovela relembra músicas dos anos 80, com a Turma do Balão Mágico, Trem da Alegria e temas de filmes como Uma Noite Alucinante 2, Top Gun - Ases Indomáveis, A História Sem Fim, A Dama de Vermelho entre outros.

Efeitos especiais da internet complementam a experiência auditiva de cada episódio, mas o destaque maior fica por conta dos atores e atrizes. A maioria deles, com exceção de Aline Duenha, atriz sul-mato-grossense, nunca tinha atuado e revelou grande talento para a interpretação em rádio.

Um dos maiores desafios dos amigos, artistas, professores e comunicadores convidados pelo Núcleo de Ecomunicadores dos Matos foi desenvolver as falas separadamente, tendo que imaginar as reações dos personagens com os quais estavam conversando. "O resultado é surpreendente, os personagens interagem entre si porque, embora gravados em dias e horários diferentes, houve grande sintonia da equipe", afirma o roteirista e diretor da radionovela, Kenji Cambará.

Cultura, história e educação

Quem vive no Pantanal e ouve Coração Pantaneiro sente grande identidade e proximidade pela história. Foram incluídos no roteiro lugares da região, sotaques característicos, histórias e lendas contadas pela população, além da crença religiosa e o respeito pela natureza. De Porto Murtinho, por exemplo, veio a história do Mala Vision, um ser amaldiçoado que vagueia pelas florestas em busca de vítimas para saciar sua sede de sangue e vingança. Na Serra do Amolar, a sociedade secreta esconde uma espaçonave gigante. E da região da Baía Negra, no Paraguai, vieram as ariranhas da radionovela.

Segundo o autor, Kenji Cambará, o Trio Ariranhas, composto pelos filhotes Mariluciêni, Ineccita e Luzicrêidio, começou aparecendo no início e fim de cada capítulo para anunciar os episódios, com poucas falas. "Mas no desenvolvimento da radionovela esses bichinhos foram ganhando carisma do público e mais falas, até obterem vários capítulos onde se tornaram protagonistas. Numa das edições do Boca da Mata, as ariranhas invadem o estúdio de gravação, amordaçam o locutor e assumem toda a produção do programa informativo", revela Cambará.

Os conhecimentos tradicionais e os saberes da população pantaneira são repassados através dos personagens locais, que também interagem com os que vêm do futuro. Tem até um inimigo secreto, um traidor, e seres de diversas partes do Pantanal como a dona Sucuri, o Touro Candil, os fantasmas do navio que afundou na Baía de Chacoré (Poconé-MT), o gigante Minhocão do rio Paraguai, indígenas e população ribeirinha participando.



Uso e diversão nas escolas

Sucesso nas escolas da bacia do Alto Paraguai, a radionovela já conquistou professores e estudantes. Em Tangará da Serra, no Mato Grosso, é ouvida dentro das salas de aulas. Em Porto Murtinho, Mato Grosso do Sul, as crianças ligam para a rádio comunitária FM Guaicuru para perguntar onde moram as ariranhas, e os professores utilizam os materiais como apoio para trabalhos.

No projeto Crianças das Águas, contemplado pelo edital do Criança Esperança, da Unicef, cerca de 40 professores de 19 escolas do Pantanal estão inserindo Coração Pantaneiro nas atividades de 2010. "Desde 2009 estamos utilizando a radionovela como apoio pedagógico para as aulas e este ano ela passa a ser uma ferramenta do processo de educomunicação das ações do projeto", afirma a coordenadora, Patrícia Zerlotti.

Para o roteirista e diretor de Coração Pantaneiro, Kenji Cambará, "este é um ótimo meio, com música e diversão, para se conhecer a cultura pantaneira, fazer educação ambiental e incentivar a cidadania para amenizar os efeitos das mudanças climáticas".

Todos os 26 episódios estão disponíveis para ouvir ou serem baixados gratuitamente no site www.dosmatos.org.br .

O Núcleo de Ecomunicadores dos Matos também oferece a preço de custo o DVD em MP3 do Boca da Mata, contendo 32 programas temáticos sobre meio ambiente e Pantanal, com todos os episódios da radionovela e 32 versões reduzidas de entrevistas especiais de 5 minutos.

Clique aqui e acesse a ficha técnica de Coração Pantaneiro

Encontre no site
ÁUDIOS
Boca da Mata 33 - Educomunicação na bacia do rio Apa - 46'23"
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