18/5/2009 - por Plinio de Sá Moreira
Carta aberta ao presidente Lula


Caro Senhor Presidente da República,

O senhor tem manifestado simpatia pelo movimento que propõe a liberação da produção e industrialização de cana na bacia do Rio Paraguai. Há quem afirme que são favas contadas. Se for verdade, não há mais sentido em discordar desta decisão, mas espero que não nos seja negado um direito democrático indiscutível - saber porquê.

Lutamos pela manutenção do impedimento, pela preservação do Pantanal. Consideramos um risco inaceitável e desnecessário. Afirmamos com veemência que o Pantanal vale muito mais para todos se for mantido livre de ameaças desta natureza. Estamos convictos que muitos podem ser severamente prejudicados para que poucos ganhem aquilo que não precisam.

Sabemos da existência de imensas áreas propícias à cana que estão degradadas, que apresentam rendimento pífio se mantidas como estão. Em Mato Grosso do Sul áreas degradadas na bacia do Rio Paraná ocupam espaço suficiente para a implantação de dezenas de destilarias.

Sabemos que o Senhor assumiu compromissos internacionais de não comprometer a Amazônia com a produção de álcool. Em todo mundo as questões ambientais passaram a figurar fortemente nas negociações comerciais. Teremos sérias dificuldades ao tentar vender nosso biocombustível se este for obtido às custas de degradações ambientais. A Amazônia é uma marca internacional forte, já o Pantanal nem sempre é tão lembrado. Mas pode muito bem entrar na agenda internacional dado sua importância e fragilidade. Cría cuervos y te arrancarán los ojos.

Senhor Presidente imagino que é nosso direito tomar conhecimento dos estudos técnicos que balizaram esta decisão. Certamente os Ministros Minc e Stephanes têm de ter farto material técnico, caso contrario não poderiam defender esta idéia, seria muita irresponsabilidade e não cremos nesta possibilidade.

Digníssimo Presidente, tenho certeza que este pedido não é descabido. Afinal caso estejamos errados, teremos uma oportunidade de aprender com os doutos assessores governamentais. Também temos a impressão de que este pedido é fácil, muito fácil de ser atendido.

Se formos ouvidos, certamente nós todos que temos responsabilidades na área ambiental poderemos ser convencidos de que estávamos errados, e acrescentar conhecimentos importantes a futuros estudos. Pedimos a oportunidade de saber a quem interessa o vinhoto no Pantanal.

Por favor, Senhor Presidente, atenda nossa reivindicação, demonstrando que destilarias nas nascentes dos rios do Pantanal não comprometem aquele Bioma e que o Brasil precisa destas terras cobertas de cana.

Plinio de Sá Moreira
psmor@terra.com.br

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