* Para ver o curta acesse Pajerema de Leonardo Cadaval
http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?cod=5642&Exib=25755#
Sempre fui fã do Kubrick, e em especial o filme 2001 odisséia no espaço, ressalto a minha predileção. Jamais me esqueci da cena que o humanóide descobre o poder da arma num simples osso e na eloqüente sonora de Strauss [das ciências] que fazia o fôlego ecoar nos ares, a mudança da paisagem chegava pela suavidade do Danúbio azul, como se a dança de uma valsa pudesse nos convidar para repensar as dualidades humanas entre a civilização e a barbárie.
Se a ascensão das ciências revela invenções sem precedentes, o declínio humano parece girar sobre a corrida financeira. Estará a pedra filosofal limitada à economia? Quando tento compreender o estágio agressivo do agrobusiness aqui em Mato Grosso, tenho a impressão de que desde os muros de Tróia ao astronauta perdido na dança espacial, a civilização meramente produziu a técnica de nossa própria automutilação. Notadamente discutimos que somos as últimas espécies a surgir na organização terrestre da vida. Na metáfora de um jogo de futebol, se a aparição da vida planetária puder ser comparada aos 90 minutos de uma partida, a espécie humana surgiu na última fração de segundo de um já quase finalizado segundo tempo. E assim tornamo-nos uma sociedade que quis livrar-se do medo, resplandecendo o controle da soberania e, simultaneamente da tirania da ordem e do progresso.
Uma sociedade civilizada deveria adquirir competências para reconhecer uma outra, seja ela parecida, seja ela estranha. No filme de Kubrick, humanóides lutam uns contra os outros com pedaços de ossos, bramidos, grunhidos e toda celeuma num cenário de poder. O cinema desvela a barbárie da primitividade de nossas origens e nem a comemoração dos 200 anos de Charles Darwin permitiria conceber que o Homo sapiens tem a mesma origem que os macacos! Mas na aurora da chamada civilização dos anos transcendentes da era de aquário, inúmeros exemplos como o oriente médio se reveste de igual cenário, e sem nenhuma necessidade de truques ou efeitos cinematográficos, testemunhamos Israel e Palestina na mesma imagem simbólica da barbárie humana. Convivemos com o amargo na boca dos nossos fracassos que, banhados de tecnologia prodigiosa, não foi capaz de humanizar a Terra, talvez revelando o que Charles Baudelaire já escrevia: "no lugar de uma barbárie declarada, as civilizações contemporâneas exercem uma grande violência".
O sujeito constrói suas relações com os outros e com o mundo, mas muitos se tornaram cegos pela corrida do poder, e adquiriram a capacidade de destruição da própria espécie. E além de não perceber os diversos povos, a centralidade humana impediu de enxergar outras formas de vida que surgiram antes de nós. A brutalidade do desenvolvimento evaporou outras dimensões para além do Iluminismo, dissimulando a magia, a fé, a mitologia ou a poesia...
Será preciso renascer como Manoel de Barros, desejando ser chão para que as árvores cresçam em nós mesmos, para que os rios possam deslizar pelas labaredas do fogo e acalentar o corpo viciado... Para o reencantamento do mundo, será necessário que a dança dos contrários evidencie a arte de potencializar a força dos bárbaros para quebrar arames farpados, e ao mesmo tempo, urdir a estética em semear a esperança no tempo da delicadeza...
MICHÈLE SATO [michelesato@pq.cnpq.br] possui pós-doutorado em educação, é líder do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais [michelesato@pq.cnpq.br] possui pós-doutorado em educação, é líder do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, com diversas experiências nacionais e internacionais [www.ufmt.br/gpea].
Referências:
STANLEY KUBRICK - 2001 ODISSÉIA NO ESPAÇO
http://www.youtube.com/watch?v=vahx4rAd0N0&feature=related
LEONARDO CADAVAL - PAJEREMA
http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?cod=5642&Exib=2575#
CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE
-- Michèle Sato --
é possível a brutalidade do arame
é possível a delicadeza da planta
nas diversas opiniões políticas
as discórdias, a ambição e o trabalho
o constitutivo do acaso
a busca pela estética da vida
é possível a civilização
é possível a barbárie
há dias que a vida se esgota
no dia seguinte da festa
quando a viola de cocho descansa
e o congo deita em sonhos
é possível o silenciar de pássaros
é possível o revoar no inefável
nestes labirintos hoje vazios
mas tão cheios de marcas,
a leitura dos símbolos
não quer deixar tudo sem graça
é possível a poesia
é possível a esperança
* *